Leitura de "Teias no céu", por Luiz Carlos Coelho


Eu estava em Paraty quando recebi esta belíssima carta escrita pelo Luiz Carlos Coelho depois de ter lido meu livro, Teias no céu. Como dito no início de seu texto, não nos conhecíamos: apesar de integrarmos a mesma equipe de professores no colégio onde trabalhamos (entrei lá este ano), ainda não tínhamos tido contato. Mas ele soube da publicação do livro e, pra minha sorte, decidiu adquirir. É muito gratificante receber um retorno como este, tão delicado e profundo ao mesmo tempo. Já agradeci pessoalmente, mas registro agora aqui, claro, o agradecimento pela leitura tão atenta.
Olaria, 25 de julho de 2026
Estimada Thaís Velloso,
Não nos conhecemos. Se você sabe algo sobre mim, é de ouvir dizer. Eu, ao contrário, ao ler seu livro, estou convencido de que nos conhecemos há muito tempo. Sensação esquisita ao ver a zona norte, Bento Ribeiro, Ramos, a Mangueira, Vila Isabel, e outros lugares pelos quais já passei e continuo passando e perceber o tanto de vida que aquelas pessoas que cruzam meu caminho carregam consigo, se derem a sorte de serem singulares como você. É possível.
Não sei se você sabe. Costumo levar minhas e meus colegas a sério quando o assunto é escrever literatura. Leio seus livros. Vou aos seus espetáculos. Se tem abertura, devolvo minha leitura. Quase sempre, seguro a mão de quem chega depois de mim. Gostaria de ser tratado desta maneira. Fez falta.
Quanto à sensação esquisita que seu livro gerou em mim, em várias ocasiões, em muitos dos episódios narrados e refletidos, me refiro a algo próximo de ser tomado. Fui tomado de assalto por um estranho sentimento de familiaridade. Você poderia ser minha vizinha, prima, amiga de infância, colega de escola ou alguma alma penada que partiu meu coração. A estranheza existe pela diferença que temos em relação às pessoas que passam pela nossa vida e muitas vezes ficam o tanto de tempo que precisam para deixar os livros que não abrirei mais, como são os livros da sua mãe, cheios de marcas. Essas pessoas vivem empoeiradas no fundo das minhas gavetas. Também me reencontro com elas, quase sempre a contragosto, quando mudo de endereço ou limpo meus livros da estante.
É estranho também porque somos diferentes pra burro. Raramente bebo, pouquissimas vezes fui ao Bode. Achei encantador e surpreendente que alguém possa e sentir em casa nestas ruas desconfiadas, hostis, competitivas e narcisistas, sem ser assim desconfiada, hostil, competitiva e narcisista. É possível além da literatura? Não sou da Vila. Sou da língua, imaginação, sou da casa e da rua, sou do coração. E em todas estas terras somos estranhamente conterrâneos.
Nada no seu texto soa pretensioso, metido à besta. Você não se deslumbra por ser rara. Exige muita perícia, ou naturalidade (?), ser simples, legível e tangível sem perder a
sofisticação. Que cabeça gostosa a sua.
Foi um episódio curioso conhecer seu trabalho pelo anacronismo que ele sustenta, no qual se entrincheira. Há muito da crônica na sua crônica. Ouço o Simas, conheci a Eneida, relembrei o João, melhor, os dois. Você se sente em casa na rua. Mesmo as crônicas mais violentas sobre o Rio de Janeiro guardam este jeito de escrever a experiência da hospitalidade no mundo. Você é uma escritora do Rio neste livro. Se vincula a uma linhagem de prestígio. Não é a minha. Não por ofício. Não importa. Você segurou minha mão, me fez um leão de cavalgar, e generosamente compartilhou comigo tantas experiências marcantes. Seu livro não foi uma aquisição, foi um presente.
Foi curioso também porque, talvez por se exercitar no mais promíscuo dos gêneros, a crônica, quase sempre me vi lendo algo diferente da crônica nas suas crônicas. Você é hábil nas memórias, na missiva, na resenha, mas principalmente no ensaio. A crônica tem algo do futebol: esporte coletivo de poucas regras que muito espaço para a liberdade dos sujeitos.
Amei suas imagens, seu jeito de filmar com nota afetiva e muito pouco afetada o mundo da rua em que está ou do quarto em que se fecha. Livros que não são reabertos, fotografias mudadas de gavetas, o espelho do pai, muros descascados e fachadas que não desbotam, o acervo minimalista da escritora sem biblioteca, o troféu e a volta olímpica do título acadêmico, o escritor cuja nudez surpreende a ele mesmo, as conversas paralelas dos alunos que atrapalham as aulas, o disco da Adriana Calcanhotto, o dia mais feliz, e o avião se espelhar no seu olhar até sumir, as duas almas do Machado, três latões de Brahma a dez reais e o sacolé alcoólico.
Você vai da fila do hospital à casa de detenção das rebeldes durante o Estado Novo. Com sua escrita você encurta caminhos no tempo e no espaço. Pelos filamentos da história e dos longos trajetos, eu fui e voltei várias vezes. Encanta que você seja professora. Estes alunos têm muita sorte.
Muito obrigado pelo trabalho.
Boa sorte!
Com admiração,
Luiz Carlos



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